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“Aquele que se importa com os sentimentos dos outros não é um tolo.” (Diário da Biblioteca – XIII, cont., 30/06/2026)

Foto do escritor: Valdemir Pires
Valdemir Pires
1 de set.
6 min de leitura

“Aquele que se importa com os sentimentos dos outros não é um tolo.”


No meio do caminho havia uma exposição
No meio do caminho havia uma exposição

 

“Pela grossura da camada de pó que cobre a lombada dos livros de

uma biblioteca pública pode medir-se a cultura de um povo.” (John

Steinbeck)


Dia ensolarado, passando de friozinho para quente, saí de casa às dez e meia para a visita semanal à Biblioteca “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto”, decidido a ficar lá até bater a fome e, então, ir almoçar no Shopping Piracicaba, já que tinha que deixar exemplares do meu livro Imagens do tempo na Livraria Leitura.

 

Como de praxe, devolvi o livro lido na semana anterior (Agosto) e fui em busca do desejado para a próxima semana: A marcha para oeste. Escolhi dentre os dois exemplares da estante o que me pareceu mais conservado; ao pegá-lo, meus dedos ficaram cheios de poeira, então peguei um lenço de papel e o limpei, antes de folheá-lo. (Enquanto o fazia, notei que numa poltrona à minha direita dormia um jovem magro e alto, de cabelos longos e pretos, apoiando a cabeça numa bengala de madeira.)

 

Meu interesse pela aclamada obra dos irmãos Villas Bôas fora despertada quando eu, na quarta-feira passada, folheava Agosto na “minha mesa” na biblioteca, o volume saltando aos meus olhos por acaso, da estante ali do lado. Assim, eu não poderia fazer ideia do quanto o livro, de fato, me atrairia – tinha, confesso, certa dúvida. Mas, ao ler os comentários na contracapa e na orelha da edição da Companhia das Letras (2012), fui logo conquistado. Muito mais o fui pela leitura de pequenos textos que antecedem o trabalho dos autores, assinados por Antonio Houaiss (brevíssima Apresentação), Darcy Ribeiro, Antonio Callado, Maureen Bisilliat e João Pacheco Oliveira (Prefácio) – todos esclarecedores e absolutamente elogiosos. Fiquei sabendo, nessa inspeção preliminar, que o livro, escrito em 1990 (e logo em seguida recebendo elogios e prêmios), nutriu-se dos diários mantidos pelos autores enquanto participantes destacados da chamada Expedição Roncador-Xingu (1943-1949), pela Amazônia meridional, da qual resultou, entre outras coisas notáveis, a criação do Parque Nacional do Xingu, em 1961 (decisão formal de Jânio Quadros).

 

Depois de ter o empréstimo do novo livro registrado, perguntei ao Elcio, que me atendeu, se ele poderia me fazer a gentileza de solicitar à bibliotecária, Sra. Melysse Martins, resposta aos meus e-mails, de 3 e 12 de junho, perguntando sobre o paradeiro de um livro de minha autoria doado ao acervo em 2023, e que até agora dele não consta, nem nas estantes, nem no sistema. Acrescentei que qualquer que seja a causa do sumiço, gostaria de conhecê-la por mera curiosidade, dispondo-me a oferecer outro exemplar para a biblioteca, caso seja do interesse. Estando a bibliotecária na sua sala, Elcio foi consultá-la para saber se me receberia, depois de me perguntar se eu não desejava resolver rapidamente a questão. A Sra. Melysse, entretanto, não se dispôs a tanto, mandando-me o recado de que me dará resposta até a próxima sexta-feira, dia 3 de julho. Aguardarei, na expectativa de que não se trate de postura de funcionário público que termina obrigando à utilização dos procedimentos previstos na Lei de Acesso à Informação para obter respostas a que os cidadãos/usuários de serviços públicos têm pleno direito; e também um pouco triste, como usuário que se vê diante de uma bibliotecária aparentemente (talvez não de fato) avessa ao diálogo com um leitor que admira seu trabalho e aprecia demais a instituição pela qual zela.

 

Livraria Leitura do Shopping Piracicaba
Livraria Leitura do Shopping Piracicaba

A fome falando mais alto que o desapontamento, fui à Livraria Leitura do Shopping Piracicaba e lá deixei meus livros com Cristiane. Antes, um susto: quase não consegui entrar no estacionamento do shopping. A cancela não abriu à aproximação com minha tag; mas eu consegui dar ré graças à gentileza do motorista que vinha atrás de mim, tentando outra cancela, logo ao lado, que abriu normalmente. (Melhor no shopping: na biblioteca eu tentei duas cancelas para obter uma resposta: nenhuma funcionou, por enquanto.)

 

A mensagem do biscoito da sorte
A mensagem do biscoito da sorte

Escolhi o Jin Jin para almoçar. Quando ia saindo, a moça do caixa me chamou e me deu o biscoito da sorte que eu tinha esquecido de pegar. Comi e li a mensagem da fitinha: “Aquele que se importa com os sentimentos dos outros não é um tolo.” Perguntei-me: E aquele que não se importa, o que é?

 

Fome saciada, fui procurar a Garbo para comprar um cinto: de tão velho, o meu está desmanchando. Não achei, fiquei me sentindo mal: estou desorientado? Descobri que não, ao perguntar pela loja a um vigilante: fechou! Que pena! Havia um funcionário que me ajudava bastante a escolher roupas nas minhas poucas compras de calças, camisas, blusas e ternos, geralmente lá. Sinto muito – nem tanto, na verdade – mas a compra do novo cinto ficará para outro dia.

 

Fui, então, triste (pelo fim da Garbo) e alegre (por não estar geograficamente desorientado), tomar um café no quiosque do Rei do Mate. A caixa que me atendeu pareceu não estar bem. Ia me atendendo meio aos chutes. Agi de modo a desarmá-la. Ela acabou me atendendo bem e dizendo: “Olha, eu sou uma boa vendedora, viu?” Quando terminei o café, antes de ir embora, passei no caixa e disse: “Tchau, boa vendedora!”. Ela respondeu com um sorriso que me pareceu verdadeiramente alegre. Pensei: “Aquele que se importa com os sentimentos dos outros não é um tolo.”

 

Caricatura de um jornalista e escritor piracicabano em exposição no shopping
Caricatura de um jornalista e escritor piracicabano em exposição no shopping

Passei do sorriso ao riso ao me deparar, no trajeto para a saída do shopping, com uma exposição de caricaturas de alto nível, à altura do que costuma acontecer na cidade do tradicional Salão Internacional do Humor. Figuras famosas, inclusive algumas locais, retratadas com uma graça toda especial. Corpo alimentado, alma também, fim da aventura do dia.

 

Foto em mensagem de whatsapp do filho Bruno: máquina sendo enviada de São Paulo a Piracicaba em 30/06, há seis anos
Foto em mensagem de whatsapp do filho Bruno: máquina sendo enviada de São Paulo a Piracicaba em 30/06, há seis anos

Retornei para casa, passando antes na Padaria Empório dos Pães para apanhar uns filões (quentes naquela hora) para levar para Regina. Enquanto eu esperava no balcão para ser atendido, recebi um whatsapp de meu filho Bruno: uma foto de uma máquina de lavar roupas sendo colocada num caminhão, em São Paulo, com a mensagem: “Exatamente neste dia [30/07], em 2018 [há seis anos], a máquina estava sendo enviada para Piracicaba.” Trata-se do eletrodoméstico que, tendo quebrado, será substituído por outro que foi entregue em casa exatamente hoje. Coincidência máxima! Eu gosto de coincidências, já disse aqui. Parece que elas também gostam de mim. Contarei outra delas, também envolvendo meu filho Bruno, para confirmar que elas me procuram.

 

Mensagem de whatsapp do Mercado Livre informando entrega de nova máquina de lavar roupas em 30/06
Mensagem de whatsapp do Mercado Livre informando entrega de nova máquina de lavar roupas em 30/06

Um dia, Bruno comprou não me lembro o quê numa grande loja de materiais de construção em São Paulo. Colocou no carrinho e foi para o estacionamento. Estava encontrando muita dificuldade para pôr a coisa no seu porta-malas. Suava quando um rapaz se aproximou e perguntou, já ajudando: “Precisa de ajuda?” Terminado o serviço, o rapaz viu a placa do Ka do meu filho e disse: “Ah, Piracicaba? Eu tive um professor de lá, num curso que fiz há alguns anos na Assembleia Legislativa; deu aulas de Orçamento Público.” Bruno perguntou o nome do professor e o rapaz respondeu: “Valdemir Pires.” Bruno, admirado e rindo muito disse: “É meu pai.” É mais que demais: uma pessoa que teve aula comigo em São Paulo (mais de 12 milhões de habitantes), anos depois encontra meu filho nessa mesma cidade e o ajuda desse jeito. E tem mais: aquele aluno, quando perguntei, no final da última aula daquele curso de Gestão Orçamentária na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, se alguém poderia me dar uma carona até o hotel em que ficaria naquela noite – caso fosse passar próximo de lá ao ir para casa – foi o que se ofereceu para me ajudar. Com um detalhe: de moto (ele tinha dois capacetes porque em seguida buscaria a esposa no seu emprego). Tenho medo de andar de moto (mesmo pilotando), mas para não ser indelicado nem para revelar-me o medroso que sou, aceitei. Fomos. Poucas vezes senti tanto pavor na vida, mas não confessei, só agradeci.

 

(Não me lembro se contei ou não este episódio ao meu querido amigo Antônio Roberto Bono Olenscki, que foi quem me convidou a ministrar o curso após o qual ganhei a carona descrita acima (2012). Foi também num dos dias daquele curso que eu e ele almoçamos juntos no restaurante da ALESP, dando início a uma amizade que dura até hoje, enraizada em fazeres em comum e, sobretudo, numa visão de mundo e da vida compartilhada quotidianamente.)

 

Tendo algumas coisas a fazer do meio para o fim da tarde, não pude iniciar a desejada leitura d´A marcha para oeste. Ficou para a noite.

 

 

 

(Continua)

 

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