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  • Foto do escritorValdemir Pires

A ousadia contra o tempo circular



Ao tempo cronológico (que passa) corresponde um tempo histórico (recheado por acontecimentos), resultando em biografia (em nível individual) e na História, em termos coletivos. É o preenchimento do tempo com eventos que se entrelaçam – o passado engendrando o presente e este engendrando o futuro – que produz a sensação de progressão, de seta do tempo que se lança sempre para a frente; vida é movimento “dentro do tempo”, no esforço de acompanhar a seta do tempo, de não enroscar num ponto dela.


Acontecimentos e eventos resultantes da ação humana são movimentos intencionais – sem eles é como se a vida estacionasse e o tempo, em vez de avançar, começasse a girar em falso, a descrever um círculo repetitivo sob impulso exclusivo da natureza: acordar, ver o dia passar cuidando simplesmente das necessidades biológicas, dormir, acordar novamente... E assim sucessivamente, sem cessar. Resultaria numa espécie de biografia vazia (apenas biológica), da qual seria impossível extrair até mesmo um simples curriculum: “Qual a sua experiência? Ver o sol nascer e se pôr, presenciar auroras e ocasos.”


Ficar “à toa na vida” é uma necessidade periódica; uma vida toda à toa, entretanto, é um desastre biográfico. Permitir que o tempo circule em falso de vez em quando ajuda a contemplar, a meditar, a recuperar energia e vontade; fazer isso muito frequentemente é uma corrosão existencial – morte em vida.


O tempo não para de passar, a vida “dentro dele”, sim, pode até parar. Normalmente, ela não para: qualquer indivíduo faz mais que acordar, ficar prostrado e dormir novamente, “perdendo” o dia, coisa rara, que pode acontecer devido a algum impedimento (doença, por exemplo) ou a algum desfrute desejado (ócio deliberado, por exemplo). Todo dia “normal” tem um ritmo sob impulso de diferentes deliberações ou imposições ou de combinações de ambas: decisões próprias e obrigações (exigências de terceiros ou das circunstâncias) levam a que manhãs, tardes e noites sejam preenchidas por fatos singulares que serão registrados na memória, como passado, compondo uma trajetória existencial e, por somatório, um acúmulo de viva social (substrato da História).


Uma vida muito rotineira "normal", apesar de não atingir o extremo de apenas acompanhar o nascer e o pôr do sol, descreve também uma progressão temporal circular, embora, nesse caso, o círculo tenha um raio maior. A vida assim vivida também gira em falso, sai de um ponto e a ele retorna, sem mudança de patamar. Muitas vezes a natureza rotineira da vida é imposta pelas circunstâncias, como acontece, por exemplo, no caso de uma pessoa obrigada, todo dia, a acordar ir para um trabalho maçante, depois retornar e restaurar-se (comendo e dormindo) para, no dia seguinte fazer a mesma coisa, sob pena de não obter o mínimo necessário para viver.


Efetivamente, para a imensa maioria das pessoas, apesar da dinâmica vibrante da vida urbana, típica da modernidade e, ainda mais, da pós-modernidade (movimentada, cheia de eventos e acontecimentos, muitos deles de impacto global), a existência é quase toda permeada por um tédio impressionante – um tempo que se esvai rapidamente, preenchido por fatos de baixa densidade transformadora, nada revigorantes ou promissores; o tipo da vida que requer entorpecimento para ser suportada – entorpecimento obtido quimicamente, misticamente ou pelo envolvimento em entretenimentos estupidificantes. Isso, claramente, não é viver: é tocar a vida, e não em frente, mas à base de curvas que nunca terminam, descrevendo um círculo, em geral de dimensão reduzida.


Infelizmente, a vida vibrante, progressiva, produtora de biografias – a vida daqueles indivíduos que tecem a fração visível e narrada, registrada, da História (do mundo e dos lugares grandes e pequenos que nele existem) – esta vida que vale a pena ser vivida (protagonizada que é, pelo ente que a vive), ela só pode germinar, nas circunstâncias históricas atuais, sobre o solo adubado pelas insignificantes vidas sem biografia que, quando muito, têm, para se legitimar e conseguir os meios para sobreviver, um currículo profissional.


É tudo como se uma imensidão de currículos fornecesse informações/especificações sobre as engrenagens da grande máquina; e biografias fornecessem informações/especificações a respeito dos motores da grande máquina. E é tudo como se importantes fossem apenas os motores, nada ou muito pouco valendo as engrenagens; sem que se perceba que motores isolados de engrenagens produzem movimentos inúteis e engrenagens sem conexão com motores são inertes. É como se não se percebesse que esses inúteis motores e essas inúteis engrenagens, uma vez concatenados entre si, somente assim, ganham utilidade e importância; é como se não fosse possível perceber que a conexão vale tanto ou mais que as coisas conectadas.


Viver, sem permitir que o tempo siga em frente e a vida rode em círculo, é ousar. E ousar é evitar viver sem ter ou buscar a compreensão de como se vive, a apreensão das circunstâncias sob as quais se leva a vida. Quando se consegue ousar assim, começa-se a combater o tempo circular, aquele tempo tedioso não preenchido pelo que nos faz humanos, verdadeiramente humanos (não como os outros animais e, sobretudo, não como simples engrenagens); ao ousar viver refletindo sobre a vida, passa-se a valorizar e buscar a liberdade e o protagonismo individuais, colocando-os em negociação com as demais existências à nossa volta; isso resulta necessariamente em não aceitar as coisas, as relações, o mundo, a vida como são.

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