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A esfarelante escravidão dos contentes



Artigo de Valdemir Pires no Estadão Noite de 28/09/2015.


Odinheiro economizado nas políticas sociais será utilizado para pagar juros a rentistas (em patamares superiores aos atuais) e, ainda assim, os rentistas continuarão como credores, sem comprometer ou arriscar um centavo a mais de suas posses e sem ameaçar seu estilo de vida desrespeitosamente exuberante e ostentatório. E todos aqueles que se arvorarem em dizer que isso está errado, ou é inaceitável, serão facilmente chamados de idiotas ou loucos: é preciso mérito e sorte para viver o paraíso na Terra.

E o pensamento econômico predominante, da mais alta reputação científica global, dará amparo à marginalização dos que apontam contradições, inconsistências e desumanidades nos sistemas e regimes que configuram a vida na sociedade urbano-industrial madura, fechando os olhos para o esfarelamento progressivo das condições materiais, sociais e culturais das estruturas, relações e instituições que a sustentam e perenizam (até quando?).

Esse mesmo pensamento econômico apontará o Estado como culpado pelos obstáculos à manutenção dos padrões ocidentais de felicidade individual, quando, na verdade, sem as dívidas públicas exorbitantes (em países ricos e em países pobres) e suas formas vantajosas (para os rentistas) de financiamento, todo o castelo de cartas do sistema financeiro global tende a ruir.

Perceber o nó é muito fácil, exige raciocínio menor que o de um vagalume, morto e definitivamente apagado. A escravidão a que a massa de seres humanos está submetida em nível global é algo sem precedentes, e obtido de um modo sutil e velado, como nunca. Requer muito pouco dispêndio de energia muscular: ninguém precisa ser preso, ameaçado ou torturado para ser escravizado: basta que seja inoculado por uma esperança de que um dia será minimamente rico; de que o futuro (em vida) lhe reserva maior capacidade de consumo.

Desatar o nó é que é difícil: ele está protegido por uma couraça inexpugnável, feita com uma liga que combina magistralmente ignorância coletiva e astúcia de classe, dourada e abrilhantada por uma cultura de massas de natureza espetacular, na qual o ideal de vida típico das celebridades amortece a sensação de insignificância e miséria dos bilhões à margem ou à beira dela.

E a sociedade nem precisa parecer, nem mesmo estar, estruturada em classes (com consciência disso): basta que prevaleça a lógica da acumulação, mesmo que quase apenas financeira.


Valdemir Pires é economista e professor e pesquisador do Departamento de Administração Pública da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp em Araraquara.


Este artigo foi publicado originalmente no Estadão Noite de 28 de setembro de 2015.

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