• Valdemir Pires

Guerreiro Ramos: entre o passado e o futuro

Atualizado: Abr 25


Guerreiro Ramos: entre o passado e o futuro, organizado por Bianor S. Cavalcanti e Frederico Lustosa da Costa, publicado pela Editora da FGV, é um alento para aqueles que não se cansam e, sobretudo, não desistem, de pensar e de fazer do pensamento, da reflexão, do questionar e do questionar-se, um modo de estar no mundo, portando utopias e desejos de mudança frente à onda longa de pensamento (?) único e ao cenário sombrio de distopias que ora grassam. Esta coletânea curta e densa, que se lê num único fôlego (recebi no meio da manhã do dia 17 de maio, comecei a ler no meio da tarde, e terminei no fim da manhã do sábado, 18, partindo para essa breve resenha) pode ser dita fulgurante. Entretanto, talvez seja vista pelos acadêmicos neopositivistas, hoje hegemônicos e sempre de plantão, como mais um daqueles trabalhos marginais (e eu perguntaria a eles: "Marginal da ´terceira margem´ do mainstream?"), cheios de pecados contra os dogmas da neutralidade científica, essa fé que portam os que não admitem outras fés que não a devotada ao Deus Mercado.

Guerreiro, combatente. Em vários ramos do pensamento. Este o Alberto em foco (que voa sem um 14 Bis, com asas do pensamento) neste passeio de ensaios combinados com pitadas de depoimentos. Na linha do oportuno resgate de um prolífico autor que ombreia Celso Furtado, Milton Santos, Paulo Freire e outros grandes (universais a partir de sua aldeia), na busca de uma compreensão do Brasil que dialoga, mas não se subordina, ao mainstream científico global (para não dizer colonizante). Gente fundamental para combater este abandono da soberania nacional e dos interesses do povo, que a burrice e o entreguismo atuais estão praticando como nunca antes se viu.

Cada capítulo tem seu valor nesta coletânea que, diferente do que é comum neste tipo de publicação, foi, realmente, "organizada" pelos professores-pesquisadores Bianor e Frederico. Lê-la de uma só vez, num fluxo contínuo, permite perceber que se trata de um apanhado muito consistente dos conceitos desenvolvidos por Guerreiro Ramos em suas obras seminais; discutidos com a avidez de continuadores incansáveis, comprometidos em imortalizar a contribuição do poeta-sociólogo engajado, que morreu amargurado pela falta de reconhecimento bem antes - 1982 - desses tempos de extrema ignorância e insensibilidade, diante dos quais talvez se suicidasse...).

"Sociologia, periferia e teoria pós-colonial" e "Teoria crítica e política paraeconômica" são os dois blocos em que se alinham os artigos, já delineando os rumos das contribuições. Desde a poesia dos 22 anos até a última obra, que o consagrou, o pensamento lúcido e cálido de Guerreiro Ramos é esquadrinhado, identificando-se pontos de partida (autores e escolas, temáticas e problemas), de chegada (elaborações como "homem parentético", "redução sociológica", "delimitação de sistemas sociais" etc.) e destinos a trilhar (ousando os autores em algumas vertentes).

Muito interessante os esforços realizados para demonstrar a atualidade do pensamento do quase-biografado e também sua aplicabilidade em situações específicas. Sobressai ao final da leitura um "quero mais" ou um "Vamos lá!".

A introdução escrita pelos organizadores faz um levantamento acerca do movimentação acadêmico-reflexiva recente ao redor do pensamento de Guerreiro Ramos. E os artigos que ficam fora dos dois eixos mencionados valorizam, a partir de abordagem histórica e metodológica, os "passeios" do mestre. No conjunto, algo praticamente inacreditável para tão curta obra. Para o chamado "Campo de Públicas", movimento acadêmico-científico nacional que congrega cursos de graduação e pós-graduação nas áreas de Administração Pública, Gestão Pública, Políticas Públicas, Gestão de Políticas Públicas e Gestão Social, um filé mignon.

Destaque-se, do ponto de vista da utilidade "operacional" imediata, a resenha que Bianor faz da própria tese de doutorado, que aponta caminhos para o gerente nas organizações públicas contribuir para sua melhoria e aperfeiçoamento, sem cair no canto da sereia de teorias descontextualizadas, atuando como gerente equalizador. Destaque-se também o esforço muito interessante de Francisco Salgado para incorporar novos elementos teóricos ao pensamento original de Guerreiro Ramos, apontando na direção de sua oportunidade e continuidade frente ao acirramento na crença do mercado e sua lógica como forma única de organizar as relações para a vida material.

Entre o jovem poeta e o sociólogo maduro, coerência, como se o que sentia e o que pensava, racionalizava, não se apartassem, como sói ocorrer: disso dão conta de demonstrar o artigo de Azevedo e Albernaz e de Martins. E não faz falta isso, hoje em dia, esse pensar sem perder de vista o sonhar?

Por último: que delícia! esse elogio ao que está no extremo oposto das práticas hegemônicas (salame science, produtivismo pelo produtivismo e internacionalização subordinante) nas universidades e centros de pesquisa brasileiros. Viva Guerreiro Ramos! Viva o pensamento que se faz com a cabeça no céu e os pés no chão, coração no meio, pulsando quente.

(Depois da releitura, mais sóbria que esta primeira abordagem, tentarei aperfeiçoar esta resenha -- se der tempo...)


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