A era da produtividade desagregadora

23/10/2019

 

J. K. Galbraith caracterizou o século XX como a era da incerteza. E. Hobsbawn falou em era dos extremos e F. Fukuyama em “fim da história”. Mergulha-se, nas últimas décadas, na era da produtividade desagregadora: a maior debilidade já enfrentada pelo capitalismo, cujos principais beneficiários  teimam em destruir o elemento-chave da governabilidade dentro da qual agem: o Estado.

É provável que, materialmente, o século XXI esteja sendo o momento mais rico da História, tanto em termos quantitativos (nunca se produziu tanto) quanto qualitativos (nunca se produziu tão variados e diversificados bens e serviços); tanto em termos do volume total de produção quanto em produção per capita. E isso se deve a uma variável-chave desde a Modernidade, acelerada e reificada pela lógica mercantil (individualista, competitiva e acumulacionista), engendrada, social e politicamente, pelo que se conhece como capitalismo: a produtividade crescente e incessante. Produz-se cada vez mais com menos horas de trabalho e menos insumos (reduzindo-se perdas de matérias-primas). E o processo de distribuição dessa produção imensa também se tornou mais racional e menos custoso, não só com o avanço dos meios de comunicação e de transporte, como pela logística fabulosamente integrada, hoje possível.

            O avanço tecnológico é, claramente, o sustentáculo físico desse modo de vida propiciador de confortos e facilidades nunca antes sequer imaginados pelos homens. O sustentáculo político, legitimador da forma  predominante de cooperação, produção, distribuição e circulação de bens  e  serviços (como mercadorias) provém, exatamente, da sua capacidade de inclusão de beneficiários e de uma crença acrítica no seu potencial para prover imensos, em tese infinitos, contingentes de tudo que se possa desejar, desde que cada um, com seus esforços e méritos, ofereça contrapartida, trabalhando ou empreendendo, respeitando os parâmetros mercantis de relacionamento, alicerçados na divisão do trabalho e na troca.

            Chegou-se, atualmente, a um quadro tal, que já não se pode distinguir se é a tecnologia que impulsiona o sistema e o processo de produção, engendrando a partir de si mesma novas facilidades produtivas (cada inovação facilitando a seguinte), ou se o impulso vem das competição acumulacionista (que coloca os indivíduos permanentemente em busca de vantagens sobre os demais). Mas é pouco importante, neste caso, saber quem vem antes, o ovo ou a galinha. De fato, o imbricamento entre as bases materiais (da tecnologia em si) e as bases sociais, culturais e políticas (legitimadoras) da inovação tecnológica incessante, ampliadora quase sem limites da produtividade, torna irrelevante buscar um ponto a partir do qual a coisa se inicia, pois o mecanismo coloca tecnologia e justificativas para sua adoção em interação auto-alimentadora. Assim, se são máquinas (cada dia mais “inteligentes”) ou homens (crescentemente coisificados, menos críticos, menos sensíveis) os que comandam o crescimento da produtividade, não se pode mais dizer com exatidão. O que se percebe, sim, é que vai se tornando muito difícil, a partir da deliberação estritamente humana, decidir por algo diferente do que está posto com relação a como cooperar, produzir, distribuir e colocar em circulação os bens necessários à sustentação da vida material.

            Contra a produtividade nada se pode dizer – consolidou-se este dogma. Afinal, sem ela, facilidades e confortos não seriam possíveis nos níveis atuais: “Vai querer voltar a caminhar de quatro?”. Por extensão, é insensato atacar o sistema, os mecanismos e os processos garantidores do avanço tecnológico que assegura mais e mais produtividade. Ou seja, o debate sobre o que é  bom ou, minimamente conveniente ou aceitável, para as pessoas, para os seres humanos envolvidos, trava, ao chegar a certo ponto, aquele ponto em que a economia, como área  de conhecimento, apresenta suas conclusões aparentemente irrefutáveis, aquisições científicas de que não se pode abrir  mão, sob pena de empobrecimento coletivo.

Economia, produtividade, tecnologia –  em tese tecnicamente, cientificamente inatacáveis como racionalizadoras das relações de produção e distribuição da riqueza –, juntamente com livre iniciativa, empreendedorismo, concorrência e meritocracia, como valores fundamentais nas relações econômicas entre os indivíduos, configuram a  visão sistemática da vida para a existência individual e coletiva maximizadora do conforto, não raro confundido com bem-estar, algo próximo de felicidade.

Feitas as mediações, ainda que com alguns defeitos nas passagens, pode-se dizer: produtividade traz felicidade; questionar a produtividade ou os argumentos dos que a defendem é questionar a felicidade ou a possibilidade de chegar a ela. Nesse estratagema argumentativo repousa a força da economia, enquanto campo de saber, enquanto ciência.

A única pedra no caminho, ou no sapato, do economista ortodoxo (desde que se aceite acriticamente a visão de mundo e de homem subjacente ao liberalismo, ao pragmatismo e a um certo tipo de hedonismo por ele desposado), ao defender o liberalismo elementar do tipo até aqui tipificado é a das desigualdades com que convivem as economias de mercado. O capitalismo concentra renda, tende a isso; assim como concentra em poucas empresas ou corporações o poder de mercado. Por mais que o pensamento econômico liberal argumente, não se desembaraça dessa pedra, que, aliás, só tem feito crescer, como bem vem demonstrando uma série de estudos recentes, Piketty o mais influente nos últimos anos. Diante de tantas e tão profundas desigualdades, como sustentar que uma boa dose de empreendedorismo (caso alguém queira ser patrão de si) permite aos de baixo subir? Ou como argumentar que boa vontade para aceitar salários baixos, determinados pela lei da oferta e da procura no mercado de trabalho (e por  isso, tecnicamente justos), em função da abundância de certos habilidades menos qualificadas, permite que ninguém permaneça desempregado? Ou, enfim, sintetizando, como atribuir à falta de iniciativa ou ao desmazelo com a qualificação profissional os baixos ou nulos rendimentos de tanta gente mundo afora? Não é necessária muita  argúcia para perceber que a cada sucesso celebrado, nesse âmbito (do empreendedorismo ou das ascensões salariais expressivas nos cargos e funções no mundo do trabalho) correspondem milhares ou milhões de fracassos relativos. E enquanto os de baixo (empregados e micro/pequenos/médios empreendedores) vão disputando entre si, com ou sem vigorosa iniciativa e criatividade, com ou sem resignação diante das escalas  salariais, um percentual pequeno da riqueza  gerada, os pouquíssimos de cima (grandes empresários, especuladores e rentistas) permanecem bem acomodados e não questionados, abocanhando percentual desproporcionalmente elevado dessa  mesma riqueza. De fato, a vida material nunca foi tão confortável para os muito ricos; quanto aos pobres, depois de sua condição ter melhorado com o capitalismo, em grande parte fruto de luta sindical e político-partidária, correm o risco de retrocederem à completa miséria, mais desesperadora do que a que havia no escravismo e no feudalismo, já que nada há na tradição e nos costumes que possa socorrê-los, como havia antes do cada um por si e do “Quem não tem competência não se estabeleça!” da lógica mercantil hoje prevalecente.

 

CONTINUA (em elaboração)

 

 

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