A Medusa tupiniquim

28/09/2019

 

“O único herói capaz de decepar a cabeça da Medusa é Perseu, que voa com sandálias aladas; Perseu não volta jamais o olhar para a face da Górgona, mas apenas para a imagem que vê refletida em seu escudo de bronze.” Em Seis Propostas para o Próximo Milênio, Italo Calvino lembra este mito para tratar da leveza e defendê-la contra o pesadume da vida e do mundo. 

            Ninguém conseguia olhar para a Medusa sem ser transformado em pedra. Isso a tornava invulnerável. Até que Perseu pôde cortar-lhe a cabeça, usando um ardil: em vez de olhar diretamente para ela, mirá-la num espelho, usando para isso o bronze de seu escudo. Foi dessa forma, por assim dizer, que venceu o real, ao invés de ser destroçado por ele. Fez uso do olhar indireto.

            Ninguém vencerá a Górgona bolsonariana lançando sobre ela o olhar direto. Ela é, desde o início, paralisante. Todos que dedicam atenção diária à movimentação que faz, indo de uma crueldade a outra, é de tal modo absorvido, que não sobra tempo e energia para ações e afazeres alternativos, que não sejam por ela pautados. Com o agravante de que a Medusa tupiniquim tem seu próprio espelho: as redes sociais que, em muitos de seus sítios manipulados ou ignorantes, a apresentam não como a repugnante entidade em que foi transformada por Atena, mas como tão linda como sua mãe, Ceto.

            A paralisia imposta pela Górgona bolsonariana consiste em gerar movimentos e manifestações que se esgotam em si, ocorrendo aos surtos e retornando sempre ao ponto inicial: o fracasso. Hoje uma manifestação nacional – não tão nacional assim – contra a reforma da previdência; outra amanhã, em defesa da educação; mais uma outro dia por Lula livre... No interior dessa frustrada empreitada, a discórdia reinando entre os que a assumem.

            O espelho, o olhar indireto. Não, olhar de frente, não. O que parece desvio é, para enfrentar o mito, lançar o golpe para decepar-lhe a cabeça. É em sua imagem refletida que o monstro se apresenta com tudo que de fato é: fulminador de direitos sociais e trabalhistas, destruidor da democracia e da coesão social, eliminador da solidariedade e da sensibilidade, promotor da barbárie global que avança. Tudo em benefício dos ganhos espetaculares de especuladores financeiros de grande porte, tudo a favor da garantia de mão-de-obra quase escrava para um capitalismo que aspira retornar aos seus primórdios sem limites humanos para a exploração.

            Olhar indiretamente para o governo de Bolsonaro é perceber no espelho o que ele constitui e representa para a derrocada do que, com  muita luta de operários, sindicatos e partidos progressistas, e após muita negociação com as forças dominantes do capitalismo (com as concessões implícitas de lado a lado) veio a ser o Estado do bem-estar social, que especuladores financeiros e capitalistas escravocratas não estão mais aceitando como forma de garantia da coesão social. Bolsonaro é um ponto nesta curva tendencial. Os pontos de uma curva são infinitos, não será mirar nele, olhá-lo de frente, que levará a enxergar a curva a reverter.

            Na prática, o olhar indireto necessário consiste em dedicar esforços por uma nova agenda política e econômica, que tenha como horizonte um projeto de retomada do crescimento econômico com inclusão social, com clareza do que está acontecendo no mundo em termos de rearranjos geopolíticos e reestruturação dos modos de produção e sociabilidade. E com clareza, também, de como lidar com as forças contrárias a esse projeto, sem cair no engodo das reformas neoliberais necropolíticas, que estão sufocando as  possibilidade de um desenvolvimento que considere, minimamente, a vida, como valor universal, dentro das possiblidades singulares de cada Nação.

            O olhar indireto leva a que os interlocutores válidos para a reversão da conjuntura, favorável aos trogloditas em ascensão, sejam aqueles que, com alguma sensibilidade (e antes que a percam totalmente), são afetados negativamente pelas medidas e posturas da Górgona bolsonariana (que inclui não só um governo, mas toda uma massa de indivíduos e organizações). Encontrar conexões, vislumbrar ações conjuntas, prospectar movimentações com possibilidades de eficácia política etc. – o desafio, nada fácil.

            Há muito contra uma ação dessa envergadura. Vale destacar, por ser a menos percebida, o pesadume que cai sobre os espíritos sensíveis. Sem, como Perseu, ter sandálias aladas, será quase impossível vencer a Górgona tupiniquim. As sandálias aladas são a educação, a cultura, a arte, a sensibilidade perdida, que tragou tanta gente aparentemente “DO bem” no país cuja imagem era de uma imensa cordialidade, de fato verificável entre a gente simples.

            Perseu aleijado (sem as asas) pode até vencer a Górgona, mas será vitória de Pirro: na terra arrasada pela insensibilidade, outras Górgonas encontrarão terreno fértil para começar tudo de novo, petrificando pessoas e instituições, paralisando as possibilidades de uma coesão social a partir de indivíduos dotados de sensibilidade, respeito, apreço pelo bom, pelo belo e pela  meditação do que  é bom e do que é belo.

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