Agenda Araraquara 2019 - Reflexões sobre o atual momento econômico (CEAR, 29/08/2019)

26/08/2019

 

Intervenção no  Painel "Produzir: Economia, Oportunidades, Desafios e Reflexões" 

Assista aqui. A partir de 1h26min, apresentação do texto  abaixo

 

1. Começo destacando, por achar fundamental para se entender os problemas e dilemas do atual momento, que a crise financeira global iniciada em 2007-2008 é como uma infecção bacteriana que foi medicada com antibióticos a que a doença resiste e, na reincidência, tende a piorar o quadro clínico do paciente.

 

2. Isso porque esta crise é fruto da especulação financeira, que continua muito presente no organismo econômico global. E, além disso, fortalecida pelas substâncias que a alimentam, a saber: primeiro, o excesso de dinheiro na economia (gerado pelo socorro governamental aos  bancos e seguradoras gigantes dos Estados Unidos e da Europa, afetados pela crise das hipotecas de alto risco); e, segundo, as políticas monetárias e fiscais da maioria dos governos, que terminam concentrando essa massa de dinheiro em menos mãos do que antes, enquanto os milhões de empreendedores falidos e pessoas desempregadas ficam sem nada ou com muito pouco.

 

3. Portanto, quando, hoje, no Brasil, os analistas econômicos mais ouvidos fazem do "mercado" seu único oráculo e costumam traduzir seus humores recomendando comportamentos e medidas típicas de especulador financeiro, praticamente desconsiderando tudo o mais, há que se chamar a atenção para a necessidade de perceber a natureza da crise que estamos enfrentando: ela é estrutural e diz respeito ao redesenho do "maquinário" que mantém vivo o capitalismo.

 

4. Muito desse novo "maquinário", em fase de concepção, tem a ver com o poder, com a política. Senão veja-se: a verdadeira ameaça ao ícone ocidental do mercado capitalista (os Estados Unidos) é a China, que vai se tornando dona de fatias expressivas das transações globais, sem ser, ela própria, uma economia de mercado, no sentido paradigmático da expressão, já que lá o governo tem um papel  muito peculiar nas relações econômicas, inaceitável nos cânones americano e europeu central. E já que lá, embora também exista especulação, esta ocorre de modo muito distinto e menos descontrolado.

 

5. Vai daí que economistas que não queiram entender de política terminam não entendendo, de fato, nem de economia, nem de mercado, quanto mais de Estado e governo, que muitos deles insistem em demonizar, fazendo tábula rasa acerca da simbiose histórica entre Estado e mercado, dinheiro e poder.

 

6. Quando esse tipo de economista midiático fala de mercado, está se referindo, no mais das vezes e com poucas exceções, ao mercado financeiro, ou, menos ainda, àquela fatia do mercado financeiro constituída por especuladores do pior tipo: gente sorrateira que não perde a oportunidade de ganhos espetaculares,  mesmo que à custa da devastação ambiental, da falência do setor produtivo, da  morte à míngua de imensos contingentes populacionais, por causa do desemprego e da desarticulação das políticas sociais.

 

7. Esquecem-se esses economistas, cheios de receitas prontas e não raro prepotentes, que não existe "Mercado", mas sim mercados, no plural: mercado financeiro e também de capitais, de ações, de seguros, de recebíveis; mercado cambial; mercados de bens de consumo (duráveis e não duráveis, de luxo e popular), mercado de bens de produção (máquinas e matérias-primas, entre essas as commodities); e, que não esqueçamos: mercados de trabalho (de alta, de média e de baixa qualificação). Cada um desses mercados reage de modo distinto e muitas vezes conflitante a cada receita indicada ou medida tomada. Que tal pluralidade ao pensar, avaliar e recomendar, no âmbito da Economia? Pluralidade não só de ideias, mas também de agentes econômicos.

 

8. Mercado, portanto, é um locus de relacionamento social. Para que exista, de fato, necessita que as trocas sejam possíveis, o que requer, numa economia monetizada e financeirizada como a atual, poder de compra amplo e bem distribuído. Do contrário, o que hoje se produz com elevada produtividade não terá como chegar ao destino final: o consumo. Vale dizer: Temos hoje uma produtividade tal, que somos capazes de devastar o meio ambiente para gerar variadas e numerosas mercadorias, ao mesmo tempo, e vamos na direção de mercados com volume insuficiente de pessoas com renda para comprá-las. Eis outro aspecto da crise atual, que é mais do que do capitalismo, revelando-se uma crise da civilização que ele engendrou.

 

9. Se queremos salvar o mercado, há que se colocar no seu devido lugar -- o dos que olham somente o dia de amanhã e não o futuro, o dos que olham somente para o próprio umbigo -- os economistas "de mercado". Temos que ir além deles ao refletir sobre nossas decisões econômico-financeiras. Tarefa nada simples, claro, seja porque é complexa, em si, seja porque o ruído de tais "economistas" é ensurdecedor e desconcentra quem deseja pensar, de fato, levando em conta o que a teoria econômica acumulou até aqui, desde o seu nascedouro.

Senão, vejamos:

 

10. Adam Smith (1776) defendia, sim, o mercado, mas no sentido de mecanismo propiciador das trocas, e não de ganhos financeiros fáceis, pois estes se equivalem ao roubo,  na essência. E roubo é um jogo de soma zero: o que uns ganham, outros perdem. Uns ganhando,  outros perdendo,  no conjunto perdem todos (a Nação não enriquece). Em outras palavras: mercado só enriquece indivíduos e Nações se ampliar a produção. Sem crescimento econômico, pode até crescer o poder de compra (dinheiro), mas este poder não servirá para nada: comprar o quê?

 

11. Schumpeter (1942): o capitalismo aí está para que haja vestidos de algodão para todas as senhoritas e não apenas vestidos de seda para  as princesas. Ou seja, se não for para o consumo de massas, o capitalismo perde funcionalidade. E também legitimidade, claro, e isso tem consequências políticas, caro economista que repudia aq política.

 

12. Keynes (1936): a especulação não é um mal em si, ela azeita as engrenagens do mercado e distribui riscos. Mas somente até o ponto em que ela é uma porção de bolhas no aquário; quando as bolhas se juntam e ficam  do tamanho do aquário, não há mais aquário. Ou seja, a especulação pode destruir o capitalismo. E o mercado é incapaz  se se autorregular com responsabilidade, em defesa de seus próprios interesses sistêmicos, como a própria crise de 2007-2008 deixou muito claro.

 

13. David Ricardo (1817): os países se beneficiam ao aproveitar suas vantagens comparativas, nas trocas internacionais; devem, portanto, produzir o que suas dotações naturais mais favorecem e trocar com os outros. Mas hoje, a grande vantagem comparativa é a inteligência aplicada ao avanço tecnológico e à organização das relações de produção. O que tem o mercado financeiro - e os economistas que são seus arautos - a dizer a respeito, a não ser recomendar a privatização dos sistemas de ensino e a retirada do Estado do mundo da ciência e tecnologia, da pesquisa?

 

14. Por fim, há mercados e mercados, conforme a fase em que os países se tornaram capitalistas, demonstrou a CEPAL, nos anos 1950-60, Celso Furtado e Raul Prebisch à frente. Embora não se possa pensar mais num desenvolvimentismo cepalino, em que o Estado assume um forte protagonismo, inclusive produtivo, não se pode, por outro lado, negar a necessidade de se pensar a política públicas para a  retomada do crescimento brasileiro -- e das  consequentes oportunidades de ganhos, não só para os especuladores financeiros. E isso esquecer que o mercado, no Brasil, não é a mesma coisa que nos Estados Unidos, na Europa, na África, no Oriente Médio. E sem esquecer, também, que diante da polarização geoestratégica atual, em que países poderosos se acotovelam, por  mais potente que seja seu mercado, um Nação não se beneficiará dele sem um Estado à altura, pois a guerra, atualmente, se ganha com as armas da astúcia simbólica e pela disseminação da tolice entre os inimigos. Mão é  mais preciso devastar territórios, mas mentes e corações e a capacidade de coesão social que têm – os principais recursos da atualidade.

 

Obrigado, bons negócios! Num ambiente econômico,  social, politico, cultural e psicologicamente saudável.

 

 

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